Cavalos Marinhos e outros bichos

Cavalos Marinhos

Eu não sei bem porque ou como

Encontrei uma princesa marinha

Com lindos cabelos longos pretoazulados

E olhos azulverdeados

Onde me perdi desde o primeiro dia em que a vi

Eu andava perdido como sempre andei

Sonhando com estrelas e com a revolução

Batendo de porta em porta propagando uma revolução

E numa das portas, ali estava ela

Eu a vi e não a vi

E ela me agarrou e me levou ao lampião

A luz era pouca, como convinha ao fundo do mar

E eu, descuidado, sem saber o que fazia

Perdia-me em seus olhos

Ela, princesa do mar, montava em cavalosmarinhos doiraprateados

Que brilhavam no luscofusco do sol poente na praia do Rio

Atirava flechas nitezianas do seu arco sartreano

Empunhava uma lança socrática e um escudo platônico

E, assim armada, partia para conquistar o mundo com muito mais certezas que eu

E era lindabelareluzente a minha princesa marinha

Eu, perdido, brigavachoravadescuidava e voltava

Ela me laçava e montava, me dominava sem que tivesse a mínima chance

Enlaçados em doces laços de enlevoamoroso

Eu lhe jurava eterno amor e ouvia dela resposta igual

Sem saber se tinha ouvido e sem nunca questionar

Quando veio nosso primeiro filho

Quanto amor, quanta dor, quanto ciúme

Ciúme ainda na barriga

Medo daquilo que lá crescia

Amor por um filho que não nascera

Discussões sobre nomes e apelidos

E o medo do que saia e de que algo desse errado

Quando ele nasceu ela dormiu logo

E eu lhe contei toda a minha vida e todos os meu medos

Ela, adormecida fora da água

Era tão frágil e não me ouvia

Eu falava e falava horas sem parar

Eu falava e não queria parar

Meu medo derramava-se em palavras inúteis

Dei a minha princesa tudo o que podia dar

Carros, casa, cama, fogões, colares e anéis

Blusas e saias, quadros e livros

E a casa se enchia de coisas

E eu a enchia de amor

Dava-lhe chocolates e flores quando voltava de viagens

E, engraçado, nunca lhe dei um aquário com cavalos marinhos

E ela, mãe de dois filhos, continuava cavalgando os cavalos marinhos

Os cabelos esvoaçantes no mar revolto

Eu jovem cavaleiro audaz senti que um dia as coisas mudavam

Senti um dia que poderia envelhecer e ter sempre ao meu lado a minha princesa

E, eu que sempre temi a morte, parei de teme-la

Sonhei-me velhojovemaudazmente revolucionário

Numa casinha branca, em cadeira de balanço com minha princesa ao lado

Traçando planos de virar o mundo de cabeça pra baixo e revolucionar céus-mares-estrelas

E corri a contar a novidade a minha princesa marinha

Eu voltava de viagem, uma viagem longa

E estava doido para encontra-la, pensando em surpresas e novidades

Trazia um presente simples que não me lembro mais

Lembrava loucuras do dia a dia como o dia em que ela me buscou com minha filha enrolada no banco de traz do carro

E sorri ao vê-la e queria lhe contar tudo

E ela me disse que precisava falar comigo também

Pediu que eu falasse primeiro, mas não me ouviu

Apenas me disse que queria se separar de mim

Quando o amor acaba nunca entendemos o porque

E muitos anos depois sonhei que seria porque nunca lhe dei um aquário com cavalos marinhos

A minha princesa já não tem cabelos longos nem é minha

Já não cavalga cavalos marinhos e lanças-arcos são coisas do passado

Passeia tranqüila numa chácara para qual nunca me convidou

E hoje sei que os cavalos marinhos estão ainda comigo

Monto neles e cavalgo mares e tempestades

Mares salgados e amargos de lagrimas que derramei e derramo ainda

Sei também que ela não se separou por causa dos cavalos marinhos

Ela apenas saiu do mar e eu continuo lá

Cavalgando ondas e fazendo revoluções

Sem explicações, sem soluções

Outros amores vieram, outros passaram

Alguns maiores, outros menores

Continuo no mar, em continua revolução

Quem quiser pode me procurar

Cavalgando cavalos marinhos, guerrilheiro em busca de um mundo melhor

Caminhar é um exercicio difícil

Caminhar é difícil

                        Demorado

                        As vezes, parece sem perspectiva

Correr é tão mais fácil

            Tem-se um objetivo

            Quer chegar-se lá

            Basta começar

            Soltar o ar depressa

            Engoli-lo

            E jogar as pernas

            Olhando em frente

Quando eu era jovem, adolescente

    Corria

     Teste de cooper

Outro dia quis correr na praia

Não demorei mais que 2 minutos

Mas andei hora e meia

Faltam pulmões? Faltam pernas?

Em casa, parado, corri 15 minutos

É tudo isso físico?

 

Meu coração diz que não

E, olhando para traz, eu vejo

Vejo o jovem arrogante

Que quer conquistar o mundo

Que corre

Também na vida

Corre ao ler

Livros de poesia

E se lê com o cérebro

Não lhe entranha o coração

 

Corre ao estudar, ao responder

Está sempre na frente

Só não adianta correr atraz da bola

Que, redonda, escapa-lhe ao correr também

Corre também atraz do amor

E, bobo, ao correr, não vê o amor lhe escapar entre os dedos

Corre com a vida

Como se a vida fosse um eterno correr

 

E é tão fácil correr

Doce se embriagar ao vento

Corre no carro

Sem saber guiar direito

Nem o carro, nem a vida

 

Espanta-se com a poesia

Que, as vezes, aos garranchos, sai de seus dedos

 

E se para de correr

É simples tomada de fôlego

Para correr…de novo

            Andar é um exercício muito dificil

            Longo, delicado, quase como um balé

            Ao andar, olhamos em volta

            Embora existam os caminhantes solitários

            Que olham os próprios pés

                        E suas próprias pegadas

            Olhos baixos, de encontro ao solo

           

Comecei a andar faz pouco tempo

Com laivos de corrida em cada gingado

Andando como se correndo estivesse

Ainda olhando meus próprios pés

Caminhante solitário…

Forçado pela vida, desacelerei

E vi que a vida vale a pena ser vivida

            Caminhando

                        E não correndo

felicidade 22/10/2005 18:59

eu ando feliz
isso atrapalha a poesia…
a poesia é filha da tristeza,
irmã gemea da solidão)
Eu ando feliz
E tudo o que escrevo é besta
A felicidade é besta
Carrega um atrapalho ao se expressar
Eu ando feliz
E não sei o que falar
Tento falar de amor
Tento falar de paixão

Lembro pessoas e situações tristes
Mas elas não me tocam o coração
Quando a gente ta feliz
Nada que acontece nos atrapalha
(nem o meu aumento de peso)
(nem tua falta, não existe solidão)

Felicidade – II 23/10/2005 15:19

eu ando feliz
Copacabana amanheceu com ar plúmbeo
(sempre quis usar esta palavra em uma poesia)
As nuvens, escuram, carregam o céu
Não votei, e não vi ninguém animado a votar
Pessoas na rua nada falavam e não existia praia
Eu passava entre elas e, feliz, nada notava
Não vi o mendigo bêbado que pensa estar vivo
Não vi os pequeno burgueses nas mesas ao lado barrigudos empaturrando-se
Não vi as putas sorrindo de olhos tristes
Não vi os trabalhadores que mantem a cidade funcionando
Não vi as crianças nuas, roubando e pedindo esmola
Não vi nada
Estava alegre e passei entre a multidão
Sorrindo sem ver nada
Hoje é domingo
E amanhã terei que olhar a cidade inteira
E continuar a luta pra ter um mundo melhor
Hoje, hoje só estou feliz e nada fiz

Pesadelos

Eu adoro filmes de terror

Em que os pesadelos são sempre negros, sombrios e escuros

Adoro ver aquele clima pesado e fechado

(meus pesadelos são muito, muito, luminosos)

Eu fiquei extasiado quando li Drácula

E ri e brinquei ao ler o Edgar Allan Poe

Sorri com Frankestein

Vivi e briquei com Lovercroft

(meus pesadelos são mais luminosos que as pinturas de Cézanne)

Os monstros de cinema me enfastiam

As vezes me dão nojo

(meus pesadelos são mais coloridos que os quadros de Di Cavalcanti)

Eu te vi em um pesadelo luminoso

No sol quente e belo de Copacabana

Você soltava os pássaros presos da gaiola

Pássaros coloridos, tão lindos

E eles, coitados, de asas cortadas, caiam devagar rumo ao chão

Ao invés de voar

Eu chorava e gritava

E te pedia “por favor, diz que não é verdade”

E você sorria, sorria

Um sorriso luminoso, colorido

Tão bonito que doía os olhos

E subia na sacada da janela

E pulava

Eu não ti vi lá no chão

Chorei frente a porta do vizinho e gritava e chorava

Uma porta tão verde que o verde descrito nos livros de José de Alencar se tornava pálido

E acordei chorando

Repetindo

“diz que não é verdade, por favor, diga”

Eu queria te mandar um poema alegre em teu aniversário

Alegre como estava me sentindo todos estes dias que passaram

Mas as noites luminosas vieram

E destruíram todo o negrume dos pesadelos de holliwod

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