piu piu

piu piu

fez o passarinho na madrugada

ou era, quem sabe, um pintinho

piu piu

as cinco da manha eu escutava

roncos de onibus em copacabana

piu piu

fazia o passarinho assustado

e assustado estou eu com a cidade

piu piu

sumiu o pio no meio da barulhada

da cidade que acordava

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Saudades

Por do Sol

Por do Sol

Ah, a saudade que eu teria se você tivesse passeado comigo em Barcelona

E tanta saudade eu sentiria da Alexanderplatz em Berlim

E de andar de caminhar de mãos dadas pela beira do Sena

E sentiria falta da brisa quando o barco nos levasse da Espanha pra Italia

E quanta tempo eu choraria ao lembrar de nosso passeio de gôndola em Veneza

Ah quantas saudades de coisas que nunca fizemos

Da praia da Bahia em que deveríamos ir

Do hotelzinho da serra gaucha onde dormiríamos encharcados de vinho e amor

Ah quantas saudades eu sentiria

De ver os quadros tão lindos do museu do Louvre e dos museus de Madri

E ver o sol descer as dez horas da noite em Paris

Copacabana à Noite

Copacabana à Noite

Sentados, de mãos dadas, de frente pros becos de Momartre

E quanto tempo teríamos brincado nos jardins das tulherias

E nos assustados com as torres de Notre-dame

Ah quantas saudades eu sentiria

De coisas que nunca fizemos

Se eu não estivesse

Com saudades das pequenas coisas que contigo vivi

(e que tão felizes me fizeram)

A bolsa ou as torres

O barulho que fizeram as torres de nova York quando caíram

Foi pouco diante do barulho que fizeram as bolsas quebrando em 29

E os mercados caindo em 2008

Crack! Crack! Crack!

Como um biscoito crocante

Os olhos que choraram na queda das torres

Não choraram tanto quanto os que choraram em 29

Não choraram tanto quanto os que berravam em 2008

Crack! Crack! Crack!

O barulho da torrada ao quebrar

Crack

Homens queimados e torrados nas torres

Não torraram tanto quanto torraram os operários em 29

Não torraram tanto quanto os operários em 2008

Crack crack crack

Quebram bolsas e empresas

Gigantes como a GM não existem mais

Crack crack

As torres que caíram fizeram tantos lucros

Tantos políticos e tantas guerras

Crack crack crack

Em 29 fizeram hitlers e bomba atômica

As torres que caíram

Produziram iraques e afeganistoes

E agora, em 2008, quantas mortes e miséria produzirão?

Crack crack crack….

Marear

Ontem ventava muito na calçada de Copacabana

Eu passeava distraído

Pessoas passavam e não vi nenhuma

Não vi as mulheres bonitas,

As velhinhas que passam sorrindo muito direitas e espevitadas

Não vi as crianças correndo

Em dia de introspecção

Só vi o mar

Só vi as ondas

E senti quando o vento deixou de bater

E veio aquela brisa suave de fim de noite11012009130

Poesia

Tem gente que sobrevive buscando comida

Outros vivem da bebida

Eu vivo da poesia

A poesia da luta nossa de cada dia

Tem gente que ama

Tem gente que odeia

Eu faço poesia

Poesias de amor e ódio

Tem gente que passa pela vida

Tem gente que vida passa por eles

Eu passo pela poesia

E a poesia é tudo que faço

Chove lá fora

Chove lá fora

E já não sinto a vontade de chorar

A água que cai já não atrai minhas lagrimas

Chove lá fora

A casa está silenciosa

Só o ronco baixo do computador

Já não existem os gritos e algazarra das crianças

Nem choros suaves e cantos ternos

Apenas o silencio impera

Tento sorrir e a boca não contrai

Tento chorar e as lagrimas não saem

Chove lá fora

E a água que cai já não atrai minhas lagrimas

Fantasmas

 

Sonhei com o dia em que montei no cavalo e me juntei a Pancho Villa

E tal como o Coronel Macondo

Fiz 99 revoluções e perdi todas

Voltando ao inicio do século dezenove

A minha cabeça, dolorida, ver ressoar os versos

“que tem por monumento as pedras pisadas dos cais”

Passa por minha cabeça delirante

Sonhos empedreados nevoentos de monstros de ferro fundido e aço

Canhões ribombando e um velho soturno carregando peixes pescados em canoa pequena

As masmorras fedorentas de homens mortos de cal e falta de ar

As homenagens tentadas e nunca terminadas

Os convites oficiais para entrevistas e homenagens e a perigrinação em hotéis que não aceitam negros

E o homem, triste, encurvados, desdobrado em mil imagens sem se dobrar jamais

E as imagens de tantos que se dobram e desdobram na lide do dia a dia e que por mim perdidos

Acabados

Arrasados

Nascidos de novo em novos homens mulheres tão diferentes que hoje não são mais gente

São fantasmas

Igual ao almirante negro que só é lembrado nas pedras dos cais

 

Confundem-se em minha cabeça todos os cafés da manhã

Mesas, crianças, pessoas diferentes em cada uma das mesas e dias que se perderam

Minha amiga, agitada, encobrindo todos a sua volta

Apressada, não conseguia um momento siquer de descanso, perdida em sonhos e devaneios

Tentando chegar aonde ninguém chegou e só chegou no medíocre lugar comum dos burocratas que um dia venderam seus sonhos em troca de carros, casa, vestidos

Ela, em minha casa, parava e falava da vida como se sua vida fosse duas

A presidente das assembléias e agitações, a mãe, mulher, criança perdida sem rumo

Minha princesa, sorrindo, preocupada com o suco sem saber se preparei direito para as crianças

As vezes trazia o café na cama amor e dor juntos sem que eu percebesse a distancia que se criava e eu não via mais perdido que todas elas

Minha princesa tão cheia de vida, de sonhos, festas, sorrindo, escrevendo, lendo

Me arrastando para a vida quando eu só queria o quieto do meu canto

 

 

Relembrando o passado

Descobri, assustado, que sou fantasma de mim mesmo

Eu olho as pessoas que passaram por mim

Olho aquelas que se afastaram e as que ainda gosto

E me parecem tão distantes, tão irreais

Como todo doido que pensa que doidos são os outros

Eu, fantasma, pensava que os outros tinham se tornado fantasmas

Ilusão.

Eu, perdido de meu passado, deslocado e desenraizado

Tornei-me em fantasma de mim mesmo

 

É difícil explicar este caminho

Caminho que percorri quando minha princesa marinha me abandonou

Caminho feito de dores e de pedras

De pedras que existem no meio de todo caminho

Primeiro eu chorei

E me apaixonei por um fantasma que surgiu de meu passado distante

E ela era distante e era tão próxima

E era tão real quanto reais são os fantasmas do passado

E eu, olhando fantasmas, não via a flor real que de mim cuidava

Que velava pelo meu sonho, pelos meus choros e até pelos amores fantasmagóricos

Sem saber, o fantasma era eu, perdido em cemitérios feitos de dados e de sorte

Sorteando amores e namoradas, trepadas, choros, paixões e beijos

Buscando em todas a princesa perdida

Buscando em mim o passado irreal e onírico que só almas perdidas podem buscar

Briguei milhares de vezes com minha flor

Que mais precisava de cuidados que eu mesmo

Que mais precisava ser enfermeira de si que de mim

E nos afastamos, nos amamos, nos chegamos e nos matamos

 

Fantasmas, só fantasmas, perdidas para sempre em brumas de um passado longinquoperto

Eu, ainda montado no cavalo, general nomeado pelo dedo de Villa,

Revolucionário ginete de novastecnologiaspalavras, ligado a classe operária

Desdobrava-me em reuniõesassembleiasencontrosmanifestações

Numa reunião em eu não devia ir a encontrei.

Passei a reunião a falar com ela e nem lembrava porque lá fui

Ela era uma fada, Risonha e triste ao mesmo tempo

Cujos feitiços me transformaram em príncipe e em carrasco

Fada boa e bruxa má numa só pessoa

Hoje sorridente, amanhã quebrando copos

Hoje cantando, amanha quebrada na cama

A sua cabeça doía e ela se transformava;

Seus filhos eram anjos e demônios

E ela os amava e odiava na mesma proporção

E queria mata-los e salva-los

E me amava e me odiava

E não sabia amar nem odiar

Perdida, suas feitiçarias me encantavam

E sua varinha de condão me afastava

 

Chorando nas pedras do caminho, pedras do caismonumento do almirante negro

Montado no cavalo que Villa me presenteou, eu sonhava

Sonhos que um dia foram realidade, sonhos que sonhamos juntos e hoje a elas nada falam

Sonhos de uma família feliz que tive em dias de amor e cantos

Sonhos empedrados em apartamentos que eu sonhava só

Sonhos que busquei em cada beijo, em cada olhar, em cada lagrima

Em cada briga de criança, em cada momento que eu olhava procurando uma ponte

Ponte que unia o nada do meu sonhamar com a alegriatriste do seu cantar

Sonhos de uma cidadeperdidalteradacaida em um maranhão mareado por lagrimas

Daqueles que cairamorreram como morreu o almirante

E ela via índios camponeses e não enxergava o amor ao seu lado

Sobraram não os sonhos mas os fantasmas que vagam errantes ao meu lado

Enquanto suas sombras seguem pelo mundo sombras do que foram e hoje não mais são

Dei de visitar cemitérios

Cemitérios de idéias, de canções e de pessoas

Pessoas que tinham morrido e não sabiam

Pessoas que viviam como se mortas estivessem

E convivia com pessoas que morreram

E tentavam viver sendo mortasvivasvampiras de si mesmas

E sugavam mais o seu próprio sangue que o meu

Eu olhava-as, espantado e seguia em frente

Andando por cemitérios enquanto pensava andar em lugares alegres

Nos afastamos eu e ela

Ela voltou ao planaltocemitério

Eu, fantasma translúcido a olho como fantasma de um cemitério distante

O sol passa por mim e não deixa sombras

Todas elas perdidas em cemitérios distantes

 

Devaneio

Um dia escrevi que o quarto onde eu estava me enchia de tristezas

E o que me enchia de tristezaa era a dor da perda

Perdas que se transformaram em fantassmas

Antes ao ver rosililia eu queria morrer

Eu desejavamavasonhava sonhos perdidos ilusões

Hoje os fantasmas delas as vezes povoam minhas noites

Mas ouvir seus nomes ou suas vozes

São coisas esquecidas que já não tocam as fibras do meu coração

E as vezes choro pelo canto não por fantasmas perdidos

Mas por sentir como perda a perda do sentiramar

Choro não sentir dor, choro não sentir a ausência

Choro por não querer mais o que antes me era tão caro

 

E eu, revolucionário, que um dia cavalgou junto com Pancho Villa

que navegou junto com o Almirante Negro

e se juntou a todas as revoluções feitas em Macondo

Agora não posso apear

Sou o fantasma de Macbeth, empunhando a espada flamejante

Sou São Jorge caçando a burguesia-dragão