A bolsa ou as torres

O barulho que fizeram as torres de nova York quando caíram

Foi pouco diante do barulho que fizeram as bolsas quebrando em 29

E os mercados caindo em 2008

Crack! Crack! Crack!

Como um biscoito crocante

Os olhos que choraram na queda das torres

Não choraram tanto quanto os que choraram em 29

Não choraram tanto quanto os que berravam em 2008

Crack! Crack! Crack!

O barulho da torrada ao quebrar

Crack

Homens queimados e torrados nas torres

Não torraram tanto quanto torraram os operários em 29

Não torraram tanto quanto os operários em 2008

Crack crack crack

Quebram bolsas e empresas

Gigantes como a GM não existem mais

Crack crack

As torres que caíram fizeram tantos lucros

Tantos políticos e tantas guerras

Crack crack crack

Em 29 fizeram hitlers e bomba atômica

As torres que caíram

Produziram iraques e afeganistoes

E agora, em 2008, quantas mortes e miséria produzirão?

Crack crack crack….

O avião caiu

O avião caiu

E ninguém viu

Ninguém dos que aqui sobraram nesta terra imensa

Viu ou deixou de ver

Só depois, no dia seguinte, soubemos que o avião sumiu

Eu, cético assumido, materialista confesso

Pergunto-me enrolado em cobertores

No meio de uma gripe chata

Afinal, se tem satélite mostrando cara de gente em qualquer rua

Se tem satélite mostrando gente pelada no seu próprio quintal

Se isso vira noticia e tem até um sistema pra gente bisbilhotar a vida alheia

Se a fofoca agora é eletrônica

E o big brother muito maior que o sonhado em 1984

Se espraia em cada dia e cada hora de nossas vidas

Como é que ninguém viu e ninguém vê o avião que sumiu?

Sei que alguns oram desesperados a deus

E outros lembram que a mais coisas entre o céu e a terra que sonham nossas vãs filosofias

Eu, macaco velho que já não mete a mão em cumbuca

Relembro enojado que a vida do vizinho pode valer dinheiro

Mas salvar vidas humanas no meio do oceano custa muito mais dinheiro

Fantasmas…

Eu gosto do gasparzinho
que me acompanhava nas noites de criança
lendo revistas em quadrinhos
adoro o trio assombro
que só assombrava a si mesmo

eu ainda ei de passear na Escocia
e visitar todos os castelos por lá
e, a noite, dormindo num dos quartos,
assustar-me com as correntes a tremular

Ah, as ruas de Londres
E o Fantasma de Baskerville
Tudo se confunde e me perco
entre lances de memoria e desejos

Já fiquei a noite inteira num cemitério
procurando um fantasma junto com um menina
e bebemos uma garrafa inteira de cachaça
e fizemos amor em cima de um tumulo
os fantasmas não apareceram
e fugimos correndo antes dos coveiros chegarem