Neblina

A neblina amanheceu cantando

As gotas pequenas de água molhavam meu rostos

E cantavam canções antigas de ninar

O homem chorava o desespero e o desemprego

Outro olhava calado o trem cheio deseperado

A neblina cantava e engolia desesperos e desesperanças

Do salário baixo e do desemprego

Era um canto baixinho que subia de cada gota

Que descia no rosto da mãe sem dinheiro para comprar o leite

E os filhos rindo com a neblina cantante ainda não sentiam a fome que chegaria

A neblina amanheceu cantando

Canções antigas de ninar

Os prédios subiam e subiam homens construindo

As gotas cantavam enquanto o meu rosto olhava a paisagem sombria

Que a tantos parecia um canto alegre de um novo dia

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Amores

Tantos amores perdidos

Tantos amores quase esquecidos

Em cada rosto e cada palavra

Busco um novo amor nova confiança

Onde foi que perdi a capacidade de ouvir e me enlevar

Onde esta perdido o meu sonhar?

Talvez em cada mulher que se foi

Talvez em risos perdidos de crianças que cresceram

Talvez nos vagões balançantes de pessoas atrasadas

Que todo dia se acotovelam no chegar e no partir

Eu passo lentamente pensando em mudar o mundo

E pensando em tantos esforços perdidos, homens e mulheres já desesperados pela vida

Eu quero mudar o mundo

E mudo continuamente minha vida

Sem achar o amor que um dia perdi

Sobrando em sorrisos e risos um coração duro que nem aço

Talhado para a luta

Pouco afeito ao amor

A dor não começa no coração

A dor não começa no coração

A dor se espalha dos olhos para todo o corpo

As lagrimas descem e queimam o rosto

A cabeça dói

E depois os dentes

Os dentes do coração

 

E você tenta esquecer

Esquecer todas as mulheres que passaram

Esquecer a adolescente de cabelos compridos que você adorou quando tinha 15 anos

Esquecer as namoradas que te deixaram

Esquecer a loira que nunca te viu

A morena que você desprezou e que deve ter chorado mais que você chora hoje

 

E principalmente você tenta esquecer todas as alegrias que ela te deu

Quando você a carregou até a cama, brincando

Quando ela te cuidou ao estar doente

Quando vocês foram ao cinema ver um filme bobo

Quando viram uma peça chata e você ficou feliz ao saber que ela também achava que era chata

 

E tenta esquecer o seu olhar de felicidade

E tenta esquecer o simples caminhar junto

E seu carinho no telefone que se transformou em frieza

 

Mas vou lembrar cada vez que alguém chegar perto

Vou lembrar da tua frieza, do negar

Vou lembrar em cada dia, em cada hora, em cada minuto

Vou lembrar que amar so rima com sofrer

Vou lembrar que não quero amar

Que não posso me entregar

Que cada entrega é dor,

Porque esqueci a lição apreendida?

Por que fui te amar se não queria?

 

Se um dia lembrar de mim, de meus carinhos e meus cuidados

Entrega para tua filha quando crescer para que ela saiba como tratar seus amados

Fazendo-os sofrer antes que eles o façam

Entrega para teu filho para que nele se fortaleça a vontade de não casar

Que se tornar um casal só quebra você em cada separação

E elas vêem sem que você queira, sem que você saiba

 

Pregue em cada canto da tua nova casa para que ela saiba o que é dor

Entrega para o teu futuro amor para que ele se previna

E saiba que um dia uma triste sina o espera

 

Aprecie cada letra e cada gota de dor

E, algum dia no futuro,

Lembre-se com alegria dos dias que tivemos

Lembre-se que já fomos felizes e que te dei felicidade

Passe na minha sepultura e traga rosas

E lembre-se que você matou quem te amou

Poesicidio em Brasília

Poesicidio em Brasília

A manchete do Correio Brasiliense diz um pouco do que se passou: Jogaram a poesia na lata do lixo. A matéria começa com um comentário colhido de um morador: “quebraram a obra do professor Cassiano”. Trata-se, esclarece a materia, de um projeto chamado Brasília Limpa. Foi contratada uma empresa terceirizada que limpou todos os outdoors e frontliths (tantas palavras difíceis para dizer que são cartzes e placas pregadas pelas ruas). Também foram retirados os pirulitos que serviram um dia para se pregar propaganda política e que tantas vezes serviram para outros anúncios. Tudo em nome da cidade limpa.

Depois que os prismas de pedra e outras manifestações artísticas que enfeitavam os pontos de ônibus da cidade foram quebradas, que tantos artistas viram suas obras destruídas, ninguém quer assumir a responsabilidade. E um administrador, distraído talvez, ignorante mais provavelmente, propõe: “nossa idéia era procurar um local para alocar essas manifestações artísticas…temos que procurar um meio de compensar essa perda. Talvez conversar com o artista e ver se ele não pode construir um peça parecida”. Sim, como todos sabem, a arte de verdade é igual a determinadas musicas em que se muda uma ou outra letra, uma ou outra nota musical e se repete as mesmas palavras e frases. Sim, talvez o professor Cassiano possa ressurgir do tumulo onde se encontra enterrado desde o ano passado e refazer tudo o que ele um dia tinha feito.

Certo, não foi nenhuma Mona Lisa. Não havia o museu do Louvre protegendo. Havia apenas uma arte singela que alegrava passantes e viajantes, que tornava a cidade mais bela e mais humana. Mas, que interessa tudo isso?

Interessa agora que a cidade é mais limpa, mais clean, no novo linguagar cada vez mais internetico e menos povão. Interessa que os artistas serão “compensados”, talvez mandem flores por 10 anos ao tumulo do professor Cassiano porque nem receber dinheiro podem os mortos receberem. Ou talvez o singelo administrador nunca pensou que tais pedras poderiam ser obras de arte e que como qualquer pedra que o incomodou, pois a arte tem o dom de incomodar os poderosos disse simplesmente: limpe isso.

E mais limpa ficou a cidade, mais longe ficaram os poemas sujos que enfeitavam e sujavam a cidade, mais duro fica meu coração a cada dia que passa, mais vontade de jogar no lixo isso tudo que se pensa elite.