E a segunda?

 dia-cinzento.jpg

Juro, o cronista acordou alegre e desceu alegre pelo elevador (poupo os detalhes matinais, que tantas páginas ocupam em Ulisses de James Joice e mantenho a crônica reta e límpida, desprezando os meandros que tanta fama deram ao romancista). Os porteiros responderam seco a seus cumprimentos, caras amarradas. O dia não tinha um sol aberto, não senhor.

As nuvens deixavam escapar um entreato de sol, mas as pessoas nem uma nesga de sorriso. O rosto duro do operário que carrega uma lata de tinta com a camisa do Flamento um dia depois da vitória. O rosto triste da garçonete que traz a preocupação de casa e antecipação das dores nas pernas depois de 12h de labuta diária sem sentar. O café estava bom, mas o café de maquina é sempre bom, não é?

Subi a rua em direção ao metrô. Não chove? Faz sol? O dia meio nublado parece turvar as pessoas. Revistas e jornais vendidos por um gordo de cara fechada. Pessoas apressadas passam com rostos anônimos fechados em seus mundos, feridos em cada sentimento, os olhos traem um futuro sem futuro.

É difícil, ao cronista, reproduzir em linhas, palavras e letras o clima triste, meio sombrio, que parecia pesar sobre a cidade. O transito fluía normalmente, meio parado, meio andando. No sinal, faltou o boy correndo apressado para entregar algo que ele não sabe o que é, só sabe que tem pressa. A loira falsa cuja blusa deixa mais ver os seios siliconados que os esconde a saia curta na medida para atrair olhares olha a frente desavisada e os homens hoje tão poucos sorridentes nem lhe sorriem e nem a ela dispensam um segundo olhar.

Dia triste? As bolsas subiram e desceram a semana inteira e ninguém notou. O homem comum parece não ver que a velocidade de aumento dos preços nos supermercados caiu e o índice de pessoas empregadas é o maior dos últimos anos. As mulheres passam e sua maquiagem antes cria que refletem o clima do dia cinzento, nem muito triste, nem muito alegre, sem sol ou sal.

dia-de-chuva.jpgCor. Falta cor. Falta sabor, o sabor da gordura, do queijo, da gema do ovo, o sabor sangrento da carne do churrasco gordurosa, o sabor doce do sorvete proibido, do doce de leite.

Desço as escadas do metrô e a moça que vende passagens nem me dá bom dia nem sorri de volta fechada atrás do vidro transparente, ela tão pouco transparente que nem vejo a tristeza dos olhos que se derramam em direção ao mundo inteiro. Passageiros atrasados e adiantados, uns quase correndo apressados batendo em outros sonolentos e eu sinto-me um peixe fora d´agua que sorri enquanto outros ficam de cara parada mais parada que fechada, sem saber sorrir ou chorar.

Subi as escadas do metro e o calor nem era escaldante como como costuma ser no Rio. Nem brisa nem o peso e o cheiro salgado acre enjoativo do suor se disseminou. Dia chato em que até as folhas das arvores caem devagar. Caminho sem sorrir. O guarda da porta do trabalho me pede o crachá. Eu o olho, busco em bolsos e carteira e nada acho. Cadê o crachá? Não sei.

O guarda tem agora um motivo para expressar o seu mal humor. É o chato que esquece o crachá e que tem que resolver o problema, identificar, para deixar ele entrar. E o cronista, finalmente iluminado, sabe o motivo da tristeza do dia. O culpado é ele, cronista, por ter esquecido o crachá, que irrita o guarda, que irrita três ou quatro pessoas para resolver o problema, e a irritação expandida destruiu sorrisos e esperanças.

A iluminação faz sorrir ao cronista em frente ao guarda mal-humorado. Afinal, é segunda-feira, as pessoas estão triste e tudo é culpa do cronista! E, sorrindo, achando-se o centro do mundo ao invés do insignificante verme que é hoje um cronista de blogs furados, sobe sorrindo o cronista o elevador, alheio ao mundo que também não lhe presta atenção, mais preocupado com o dia-a-dia desta vida sofrida que com os sorrisos inconsistentes do cronista doente.

Fantasmas

 

Sonhei com o dia em que montei no cavalo e me juntei a Pancho Villa

E tal como o Coronel Macondo

Fiz 99 revoluções e perdi todas

Voltando ao inicio do século dezenove

A minha cabeça, dolorida, ver ressoar os versos

“que tem por monumento as pedras pisadas dos cais”

Passa por minha cabeça delirante

Sonhos empedreados nevoentos de monstros de ferro fundido e aço

Canhões ribombando e um velho soturno carregando peixes pescados em canoa pequena

As masmorras fedorentas de homens mortos de cal e falta de ar

As homenagens tentadas e nunca terminadas

Os convites oficiais para entrevistas e homenagens e a perigrinação em hotéis que não aceitam negros

E o homem, triste, encurvados, desdobrado em mil imagens sem se dobrar jamais

E as imagens de tantos que se dobram e desdobram na lide do dia a dia e que por mim perdidos

Acabados

Arrasados

Nascidos de novo em novos homens mulheres tão diferentes que hoje não são mais gente

São fantasmas

Igual ao almirante negro que só é lembrado nas pedras dos cais

 

Confundem-se em minha cabeça todos os cafés da manhã

Mesas, crianças, pessoas diferentes em cada uma das mesas e dias que se perderam

Minha amiga, agitada, encobrindo todos a sua volta

Apressada, não conseguia um momento siquer de descanso, perdida em sonhos e devaneios

Tentando chegar aonde ninguém chegou e só chegou no medíocre lugar comum dos burocratas que um dia venderam seus sonhos em troca de carros, casa, vestidos

Ela, em minha casa, parava e falava da vida como se sua vida fosse duas

A presidente das assembléias e agitações, a mãe, mulher, criança perdida sem rumo

Minha princesa, sorrindo, preocupada com o suco sem saber se preparei direito para as crianças

As vezes trazia o café na cama amor e dor juntos sem que eu percebesse a distancia que se criava e eu não via mais perdido que todas elas

Minha princesa tão cheia de vida, de sonhos, festas, sorrindo, escrevendo, lendo

Me arrastando para a vida quando eu só queria o quieto do meu canto

 

 

Relembrando o passado

Descobri, assustado, que sou fantasma de mim mesmo

Eu olho as pessoas que passaram por mim

Olho aquelas que se afastaram e as que ainda gosto

E me parecem tão distantes, tão irreais

Como todo doido que pensa que doidos são os outros

Eu, fantasma, pensava que os outros tinham se tornado fantasmas

Ilusão.

Eu, perdido de meu passado, deslocado e desenraizado

Tornei-me em fantasma de mim mesmo

 

É difícil explicar este caminho

Caminho que percorri quando minha princesa marinha me abandonou

Caminho feito de dores e de pedras

De pedras que existem no meio de todo caminho

Primeiro eu chorei

E me apaixonei por um fantasma que surgiu de meu passado distante

E ela era distante e era tão próxima

E era tão real quanto reais são os fantasmas do passado

E eu, olhando fantasmas, não via a flor real que de mim cuidava

Que velava pelo meu sonho, pelos meus choros e até pelos amores fantasmagóricos

Sem saber, o fantasma era eu, perdido em cemitérios feitos de dados e de sorte

Sorteando amores e namoradas, trepadas, choros, paixões e beijos

Buscando em todas a princesa perdida

Buscando em mim o passado irreal e onírico que só almas perdidas podem buscar

Briguei milhares de vezes com minha flor

Que mais precisava de cuidados que eu mesmo

Que mais precisava ser enfermeira de si que de mim

E nos afastamos, nos amamos, nos chegamos e nos matamos

 

Fantasmas, só fantasmas, perdidas para sempre em brumas de um passado longinquoperto

Eu, ainda montado no cavalo, general nomeado pelo dedo de Villa,

Revolucionário ginete de novastecnologiaspalavras, ligado a classe operária

Desdobrava-me em reuniõesassembleiasencontrosmanifestações

Numa reunião em eu não devia ir a encontrei.

Passei a reunião a falar com ela e nem lembrava porque lá fui

Ela era uma fada, Risonha e triste ao mesmo tempo

Cujos feitiços me transformaram em príncipe e em carrasco

Fada boa e bruxa má numa só pessoa

Hoje sorridente, amanhã quebrando copos

Hoje cantando, amanha quebrada na cama

A sua cabeça doía e ela se transformava;

Seus filhos eram anjos e demônios

E ela os amava e odiava na mesma proporção

E queria mata-los e salva-los

E me amava e me odiava

E não sabia amar nem odiar

Perdida, suas feitiçarias me encantavam

E sua varinha de condão me afastava

 

Chorando nas pedras do caminho, pedras do caismonumento do almirante negro

Montado no cavalo que Villa me presenteou, eu sonhava

Sonhos que um dia foram realidade, sonhos que sonhamos juntos e hoje a elas nada falam

Sonhos de uma família feliz que tive em dias de amor e cantos

Sonhos empedrados em apartamentos que eu sonhava só

Sonhos que busquei em cada beijo, em cada olhar, em cada lagrima

Em cada briga de criança, em cada momento que eu olhava procurando uma ponte

Ponte que unia o nada do meu sonhamar com a alegriatriste do seu cantar

Sonhos de uma cidadeperdidalteradacaida em um maranhão mareado por lagrimas

Daqueles que cairamorreram como morreu o almirante

E ela via índios camponeses e não enxergava o amor ao seu lado

Sobraram não os sonhos mas os fantasmas que vagam errantes ao meu lado

Enquanto suas sombras seguem pelo mundo sombras do que foram e hoje não mais são

Dei de visitar cemitérios

Cemitérios de idéias, de canções e de pessoas

Pessoas que tinham morrido e não sabiam

Pessoas que viviam como se mortas estivessem

E convivia com pessoas que morreram

E tentavam viver sendo mortasvivasvampiras de si mesmas

E sugavam mais o seu próprio sangue que o meu

Eu olhava-as, espantado e seguia em frente

Andando por cemitérios enquanto pensava andar em lugares alegres

Nos afastamos eu e ela

Ela voltou ao planaltocemitério

Eu, fantasma translúcido a olho como fantasma de um cemitério distante

O sol passa por mim e não deixa sombras

Todas elas perdidas em cemitérios distantes

 

Devaneio

Um dia escrevi que o quarto onde eu estava me enchia de tristezas

E o que me enchia de tristezaa era a dor da perda

Perdas que se transformaram em fantassmas

Antes ao ver rosililia eu queria morrer

Eu desejavamavasonhava sonhos perdidos ilusões

Hoje os fantasmas delas as vezes povoam minhas noites

Mas ouvir seus nomes ou suas vozes

São coisas esquecidas que já não tocam as fibras do meu coração

E as vezes choro pelo canto não por fantasmas perdidos

Mas por sentir como perda a perda do sentiramar

Choro não sentir dor, choro não sentir a ausência

Choro por não querer mais o que antes me era tão caro

 

E eu, revolucionário, que um dia cavalgou junto com Pancho Villa

que navegou junto com o Almirante Negro

e se juntou a todas as revoluções feitas em Macondo

Agora não posso apear

Sou o fantasma de Macbeth, empunhando a espada flamejante

Sou São Jorge caçando a burguesia-dragão

Dor

paisagem-guaratuba-andersen-1925.jpgTamanha é a dor

Tamanho é o sofrer

Que o meu cantar se apagou

As palavras que correm no papel

Escorrem sofridas do meu coração

Os beijos que saem de minha boca

São suspiros tormentosos do meu sofrer

O abraço que te dou suave e carinhoso

É só lembrança amarga do meu viver

Tamanha é a dor

Que cada corpo que passa é só torpor

E o ardor do meu amor

É puro amargor

Tamanha é a dor

E pouco, muito pouco, o que penso ser amor